4 toneladas de resíduos processados em 200m2

É POSSÍVEL CUIDAR DO LIXO EM CASA? E DE 4 TONELADAS?

Por Eduardo Feniman

Sim, é possível. No mês de março foram processados na Quinta da Videira, base do movimento Do Meu Lixo Cuido Eu eu em Curitiba, 4.118 quilos de resíduos urbanos. Esse volume representa o lixo orgânico mensal de 152 casas (SEMA, 2009). Todo este material demandou o envolvimento direto de 3 famílias, num espaço de 200m2.

Todo este material consiste de restos de comida, rejeitos de hortifrutigranjeiros, aparas de jardinagem, cepilho de madeira e borra de café vindos de um raio de 3km da nossa casa fornecidos por vizinhos e comércios locais.

A coleta

Com a nossa Kombi, passamos todas as manhãs coletando os rejeitos de hortifrúti, além dos materiais que

encontramos pelo caminho: sacos de grama, capim e outros rejeitos que podem ser utilizados no quintal.

Uma vez por semana é feita a coleta da borra de café em cafeterias e padarias da região. São em média 70 quilos de material que deixam de ir para o aterro. Um material precioso para manter a higiene das instalações dos animais é o cepilho, coletado numa marcenaria a cada quinze dias.

O uso

Os materiais do hortifrúti vão diretamente para a alimentação dos animais do quintal: cabras, coelhos e galinhas. Aquilo que é excedente complementa a alimentação das duas vacas da Dona Justina, uma simpática senhora

que mantém viva a tradição de criar animais no bairro.

Falando de tantos animais, a cena pode parecer rural. Estamos falando do Mossunguê, que tem sofrido uma transformação na sua paisagem trocando as simpáticas casas de antigamente por grandes e modernos prédios que mudam até o nome da região para Ecovile.

A borra de café é incorporada na compostagem juntamente com as aparas de jardinagem. Essa mistura equilibra Carbono (aparas) e Nitrogênio (café) de modo que em algumas semanas temos um composto de excelente qualidade para nossas plantas.

O cepilho de madeira é um material absorvente rico em carbono que mantém a higiene das instalações dos animais. Ele absorve a urina evitando o mau cheiro, além de se combinar com o Nitrogênio presente no esterco.

O resultado

Com esse manejo temos uma redução de volume considerável, fazendo com que quatro toneladas de resíduos orgânicos sejam facilmente integrados ao sistema sem mau cheiro ou contaminações que aconteceriam se tudo isso estivesse no aterro sanitário.

O destino final de tudo isso é a horta, que transforma “lixo” em comida. Ainda temos como produto final os ovos, carne e em breve o leite das nossas cabras. Boa parte do composto é compartilhado com os vizinhos que ajudam com o fornecimento dos restos de comida.

Por que fazer isso? Porque se nossa avó fazia, nós também podemos. Porque não é justo jogar nosso lixo debaixo do nariz de outro. Porque se entendermos que somos parte de um todo que é a Criação, não podemos desrespeitar os outros seres, muito menos seu Criador.

A terra tem a capacidade de produzir vida e os resíduos orgânicos fazem parte desse ciclo. Não podemos transforma-los em geradores de morte para nossa comodidade* (OLIVER). Precisamos entender, respeitar e nos integrar responsavelmente a tudo isso.

O caminho para a sustentabilidade não está nas tecnologias do futuro, mas no diálogo destas com o resgate de práticas do passado. Em admitirmos que cometemos um erro, que devemos aceitar os limites e reconhecer o Criador que sustenta sua Criação.

Agradecemos aos parceiros que fazem possível essa realização: Frans Café, Fenac, Café do Ponto, Café Metrópolis, Balaroti, Spazio di Pane, SENAI, Harue Hortifrutigranjeiros, Da Roça Hortifrutigranjeiros e todos os nosso vizinhos.

* Mais sobre esse assunto em https://domeulixocuidoeu.wordpress.com/os-animais-e-os-residuos-urbanos/


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10 Responses to 4 toneladas de resíduos processados em 200m2

  1. O que dizer? Ver vocês é estimulante e tem sido, daí fico grato a vocês (e a Deus por vocês) pelo exemplo, pela simplicidade e pelo compromisso inclusive de divulgarem as ações. Mas é também constrangedor…não sei se fazem idéia do quanto é constrangedor. Segui-los significa perceber-se “perdido”…é horrível perceber que cheguei num ponto em que deixar de usar sacola plástica significa mudar de vida. Putz! E só quem tenta deixar é que sabe disso! Constrangedor perceber-se fracassado na tentativa de criar 10 minhocas…de apenas não deixar que elas morram! Enfim…isso é um desabafo grato! rsrs. Desculpa e obrigado. Abraço em vocês.

    • edufeniman disse:

      Caro Hugo,

      A boa notícia para um “perdido” é que ele pode ser encontrado, o que significa o contato com o outro. Estamos dispostos a te ajudar a cuidar do seu lixo com suas minhocas e avançar por esse caminho. Tudo o que fazemos só possível por causa do “nós”, do espírito comunitário que nos cerca. Estamos juntos, fique firme e com a esperança que você está dando os passos certos mesmo que pareçam difíceis e duvidosos. É caminhando que se faz o caminho.
      Fica na paz!!!
      Eduardo

  2. Rene disse:

    Parece inacreditável mas está aí! Uma usina de ‘reciclagem’da vida!

  3. Elisabeth Christmann Ramos disse:

    Eduardo parabéns pra vc e para todo o pessoal da Quinta da Videira. Cada vez que recebo ou ouço notícias de voces me emociono pela garra e disposição com que voces passaram do discurso perigoso do “ecologicamente correto” para a prática consciente e determinada deste que é um, dentre os muitos problemas ambientais dos dias atuais. Ao mesmo tempo fico feliz e orgulhosa pelo trabalho de voces. Sucesso e bom trabalho.

  4. Daniela disse:

    Parabéns, Edu. Ah, se todos fossem iguais a você :-))
    Fiquei muito feliz pelas notícias. Vocês realmente fazem a diferença. bjs

  5. ramos disse:

    Parabens, eu ja comecei aqui em porto alegre ja faz 1 ano, toda minha produção organica ja é reciclada, agora tenho 2 coelhas e essa semana ganhei 3 garnizé para ajudar.

  6. Regina disse:

    Estou começando aqui em vitória ES.
    Tenho a pretenção de influenciar meus amigos.
    Em breve trarei notícias.

  7. […] semelhante ao solo, que pode ser utilizado como adubo. Essa é a alternativa que a galera do Meu Lixo Cuido Eu encontrou para reutilizar este resíduo que produzimos diariamente em nossas […]

  8. Hj tive a oportunidade de assisti uma palestra sobre Produção para a Subsistência em Ambientes Urbanos e a Comunidade Quinta da Videira, pelo Prof. Cláudio Oliver. Fiquei encantada com a consciência ecológica, respeito à natureza e sustentabilidade. É uma mudança de atitudes diante da vida consumista e descartável que vivemos atualmente, respeito aos hábitos culturais e a” importância de fazer”, de cuidar e de se autosustentar e de repassar conhecimentos para gerações futuras. Essa frase apresentada na palestra, traduz tudo sobre Segurança Alimentar: “Pela primeira vez na história não existe mais o medo de se não ter o que comer, mas a dúvida sobre a possibilidade de se morrer ou adoecer devido ao que se come”.

  9. ramos disse:

    eu faço minha parte também, todo organico vira adubo

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