Os animais e os resíduos urbanos

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Como já disse em outro documento, no qual expus uma tipologia do lixo, toda atividade biológica que ocorre como parte do ciclo da vida produz três tipos de subprodutos: rejeitos, restos e dejetos. Os rejeitos são as partes não aproveitáveis externamente identificadas como tais pelo utilizador daquele produto: cascas, peles, caroços e etc. Os restos, de fato, são uma consequência da abundância – tanto da real quanto da artificial – e podem ser encontrados igualmente em uma floresta repleta de frutíferas ou na praça de comilança de um Shopping Center. Os dejetos fazem parte dos resíduos provenientes da atividade fisiológica e compõem a porção não utilizável no processo metabólico das plantas e animais e que são por esses excretados. Estas definições e termos, abordados naquele texto, será em breve publicado por aqui.

Restos, rejeitos e dejetos compõem aquilo que chamamos de remanescentes orgânicos (MORAES, 2010) e existem em abundância onde quer que haja vida. No entanto, a organização humana em ambientes urbanos provoca uma mudança na forma como estes interagem com o ciclo da vida.

Em um meio natural, os remanescentes orgânicos raramente se acumulam ou poluem. Para verificar tal fato basta entrar em uma floresta. Normalmente a primeira coisa que fazemos é respirar fundo, e experimentar o frescor do ar. Fazemos isso quase que inconscientes, sem nos darmos conta de aquele é o lugar onde centenas de animais comem, urinam, defecam, deixam pedaços, cascas e restos, rejeitam partes de alimentos e morrem… todo dia. Mas ao contrário de nossas lixeiras e aterros sanitários, nada ali fede. Tudo tem destino rápido e certo. Os remanescentes de uma atividade biológica são, harmoniosa e continuamente, utilizados como fonte de alimento de outra, em um ciclo que começa e termina nos vegetais e fungos. Estes últimos o elemento chave do processo.

O meio urbano gera, entre outras mazelas, uma falsa sensação de abundância. O que a torna falsa é o fato, entre outros, de que a referida abundância não é fruto de nenhuma atividade diretamente relacionada à sua produção. A tendência é que tudo – ou quase tudo – a que se tem acesso no meio urbano sofra a mediação do dinheiro e por meio dele acumule-se em bens desnecessários, comida em excesso e principalmente na forma de lixo.

Aterro em Curitiba

A maior parte das atividades urbanas tem como objetivo a geração de dinheiro, um pedaço de papel a que se convenciona dar o poder de fazer surgir o que se deseje ou que se esteja convencido de ser uma necessidade. Com o dinheiro e o expediente do petróleo barato, toneladas de alimentos são trazidos, acumulados e desperdiçados todos os dias, em pilhas nas centrais de distribuição, aterros sanitários e nas caixas coletoras dos Shopping Centers e supermercados.

A possibilidade de o dinheiro fazer surgir facilmente o que se deseje, sem sazonalidade, sem restrição climática, sem o custo de meses ou anos de espera, gera um profundo descaso com o destino dado aos três subprodutos da atividade biológica. Partes aproveitáveis são desprezadas às toneladas, se produz muito mais restos do que aqueles que seriam produzidos em uma cozinha, em uma floresta ou em uma casa convencional e eliminam-se dejetos diluídos em água potável em quantidades absurdas. Todos estes nutrientes se transformam inevitavelmente em poluentes no meio urbano, acarretando problemas, desequilibrando a fauna e a flora, produzindo zoonoses e enfermidades humanas, desgraçando a qualidade de vida dos desafortunados que vivem em áreas próximas de seu despejo, e ampliando o abismo social existente entre classes sociais. Os remanescentes orgânicos compõem cerca de 60% do total de lixo produzido por uma família na cidade, e na forma de poluentes deixam de ser aproveitados, tornando-se fonte de problemas.

Diante deste quadro de acumulo de nutrientes perdidos e de desperdício, alguns chegam a pensar em como estes poderiam ser aproveitados de forma mais inteligente. Produção de mais energia para o consumo (um dos destinos menos nobres a tais riquezas), compostagem e alimentação animal são alguns dos destinos propostos, mesmo assim por bem pouca gente.

A utilização destes nutrientes na alimentação animal para a produção em escala pode ser um destino interessante, e parte da pergunta: Como utilizar tais recursos de modo a nutrir animais destinados ao consumo humano? Tal pergunta, apesar de interessante, não questiona o modo como as coisas se organizam no meio urbano. Talvez se a mesma fosse invertida pudéssemos ter uma alternativa ainda mais instigadora.

Ao invertermos a pergunta ela poderia ser formulada mais ou menos assim: Que animais podem ser utilizados1 para resolver o problema de destinação de restos, rejeitos e dejetos?

Tradicionalmente, nossas avós e bisavós sempre fizeram-se esta pergunta e dessa forma foram as precursoras, promotoras e grandes especialistas na prática da pecuária urbana e do manejo de restos, rejeitos e dejetos. O mix de animais de quintal garantia fornecimento de proteínas de qualidade superior a forma de ovos frescos e sem aditivos, carne fresca oriunda de frangos, coelhos e pequenos suínos, e fertilidade na horta pela abundância de minhocas e outros habitantes da terra, alimentados por cascas e rejeitos enterrados, isso sem levar em conta a segurança do cachorro e o controle de roedores pelos gatos.

Associar àquela prática os conhecimentos modernos de manejo, seleção, bem estar e nutrição animal seria, e é, ganhar uma excelente forma de ampliar a soberania alimentar, diminuir o impacto poluente de nossa absurda produção de lixo e restaurar aspectos de qualidade de vida perdida, bem como reduzir aqueles aspectos que às vezes faziam sofrer a algumas de nossas avós.

Reconectar nossas vidas aos nossos companheiros ao longo da história – os animais – é parte da possibilidade de resgate de nossa humanidade que vai se perdendo a passos largos no processo enlouquecido de uma sociedade baseada no consumo apático, na correria e na esquizofrenia coletiva. Com eles podemos promover maior soberania alimentar, diminuir o impacto de nossa presença danosa no planeta e passarmos a nos integrar ao ciclo da vida, como havia de ser desde o início de nossa existência no planeta. Com eles podemos respeitosamente produzir nosso alimento, ganhar companhia, reduzir nosso stress, sair da frente da TV (quem quer TV quando pode ver cabras carinhosas, galinhas curiosas e coelhos saltitantes), nossos filhos e filhas podem ter uma profunda experiência de vida e nossa vizinhança se tornar um lugar de trocas, colaboração e compartilhar.

Em nossa prática na Quinta da Videira (nossa pequena unidade de agropecuária urbana) utilizamos atualmente 4 espécies animais como cooperadores em nosso manejo de remanescentes urbanos: Galinhas, coelhos, minhocas e cabras. Importamos para dentro de nosso quintal de apenas 200 m2, entre 1.5 e 2 toneladas de restos e rejeitos urbanos por mês, e produzimos a partir dessa importação: composto, humus, ovos e vegetais em quantidade suficiente para nossas três famílias participantes de nossa comunidade intencional e mais alguns vizinhos e amigos. Recebemos vizinhos e amigos, crianças e reportagens quase todos os dias e temos tido o privilégio de ver surgir mais vida e saúde proveniente do manejo de nutrientes normalmente encaminhados como poluentes pelas atuais políticas públicas.

Iremos publicando por aqui, na medida em que o tempo for gerando a demanda, sobre o manejo de cada uma das espécies animais que temos e como nós o fazemos. Dicas e manuais, respostas e solução de problemas serão compartilhados. Por isso, fique a vontade para entrar em contato e fazer suas perguntas, compartilhar conselhos e acertos além de estimular a discussão, espalhando a notícia sobre nossos textos por meio de suas redes de contato e dos interessados no assunto.

Muito obrigado por ler até aqui, fique a vontade para entrar em contato quando desejar.

Claudio Oliver

MORAES, Felipe P. – Manejo de resíduos sólidos em condomínio residencial em Curitiba – PR – TCC UTFPR – 2010

1Esta abordagem se soma a um outro elemento: a possibilidade de soberania alimentar, que tratarei em outro artigo

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